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Aprendendo a silenciar o barba azul

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O conto do Barba Azul, produzido originalmente por Charles Perrault e adaptado pela Dra Clarissa Pinkola Estés, em seu livro Mulheres que correm com os lobos conta sobre um homem muito rico e que causava estranhamento por um detalhe em sua aparência, a sua barba azul.

No conto, ele já havia casado seis vezes, mas ninguém sabia o que tinha acontecido com suas esposas. Um dia ele visitou um dos seus vizinhos e pediu para casar com uma de suas filhas, e toda a família ficou apavorada, mas ele conseguiu casar com a mais nova das irmãs. Os dois casaram e foram viver em um castelo muito nobre.

Algum tempo depois, o Barba Azul saiu para viajar, e entregou a chave de todas as portas do castelo para sua esposa, mas uma dessas portas ele proibiu que ela entrasse. Após alguns dias pensando no que havia lá, sua esposa resolveu bisbilhotar o que havia no quarto, e ela descobriu o macabro segredo do marido: o chão do quarto estava todo manchado de sangue, e os corpos das ex-esposas do Barba Azul estavam pendurados na parede.

Assustada, a jovem esposa sai do aposento, mas para seu espanto, a chavinha começa a sangrar sem parar e suja seu vestido. Ela tenta limpar a chave de todas as maneiras, mas é impossível; assim, a esposa esconde a chave no armário, onde mancha todas as roupas.

Ao voltar de viagem, o homem procura saber se suas ordens foram obedecidas. Ao descobrir a “traição”, ele diz a esposa que ela será a próxima, mas ela pede 15 minutos para se reconciliar com Deus antes da morte. Com esse tempo, ela consegue ajuda e seus irmãos enfim matam o Barba Azul e ela fica livre.

“Todas as criaturas precisam aprender que existem predadores. Sem esse conhecimento, a mulher será incapaz de se movimentar com segurança dentro de sua própria floresta sem ser devorada. Compreender o predador significa tornar-se um animal maduro pouco vulnerável à ingenuidade, inexperiência ou insensatez.”

Dra Clarissa nos deixa alguns ensinamentos importantes, como o fato de que precisamos aprender

a reconhecer nossos predadores. Eu conheço alguns dos meus, e tenho visto algumas amigas comentando que guardam alguns em comum comigo também.

Você conhece os seus? Vou deixar alguns questionamentos úteis para reconhecer alguns predadores comuns. Talvez, essas frases possam te trazer algumas lembranças. Lembra…

  • Aquela vaga de emprego dos sonhos, pediu 10 requisitos, dos quais você só tinha certeza de atender 4 ou 5. Você manifestou interesse? Deixou a vaga para lá?
  • Aquele refactor que nunca acaba de uma feature que no fundo você sabia que aquele código foi o melhor que você foi capaz de fazer naquele momento, com a bagagem de aprendizado que você carregava até então;
  • Aquele novo projeto que tinha tudo para ser um novo desafio empolgante, mas você não consegue sentir tanto entusiasmo porque está no fundo apavorada;
  • Aquela discussão na reunião sobre uma decisão técnica que você sabia que podia contribuir com o assunto, mas não conseguiu expor o que você pensava;
  • Aquela palestra que você queria submeter, mas não conseguiu;

Eu sei que você pode ter lembrado de alguma dessas situações. Que fique bem claro, talvez essas situações possam ter acontecido porque você está/esteve em um ambiente hostil, e o predador esteja fora mesmo.

O problema dessas situações, é que, elas costumam ficar com a gente depois. O predador passa a morar dentro da gente. E o que fazer para acalmar os predadores que moram dentro da gente? O predador pode nos trazer mensagens sobre os aspectos da cultura em que vivemos.

“A mulher convoca seus irmãos psíquicos. O que eles representam na psique de uma mulher? Eles são os propulsores mais musculosos, os elementos de natureza mais agressiva da psique. São a força interior à mulher que sabe agir quando chega a hora de matar. Embora essa qualidade seja retratada nessa história por meio do sexo masculino, ela poderia ser atribuída a qualquer um dos sexos – bem como a objetos que são neutros como, por exemplo, a montanha que se fecha sobre o intruso, ou o sol que desce por um instante a fim de torrar o saqueador.”

Olhe para as histórias de todas as mulheres ao seu redor, suas ancestrais ou para dentro de você mesma e perceba quanta força você já tem. Você já enfrentou tantas coisas até aqui, você tem uma força transformadora dentro de si.

“Encontrar a mínima porta é importante; desobedecer às ordens do predador é importante; descobrir o que esse quarto abriga de especial é fundamental”.

Ao olhar para dentro, podemos perceber que estivemos permitindo o assassinato de nossos sonhos, objetivos e esperanças. Essa pode ser uma apavorante descoberta. É preciso agora aprender a desobedecer o nosso Barba Azul interno, silenciar quem nos silenciou.

"Talvez o mais importante seja o fato do Barba-azul trazer ao nível do consciente a chave psíquica, a capacidade de fazer qualquer pergunta a respeito de nós mesmos, da nossa família, dos nossos projetos e da vida como um todo. Depois, como um ser selvagem que tudo fareja, que cheira em volta, debaixo e dentro para descobrir o que uma coisa é, a mulher está livre para encontrar respostas verdadeiras para suas perguntas mais profundas e mais sombrias. Ela está livre para arrancar os poderes daquilo que a assolou e para voltar esses poderes, que antes foram empregados contra ela, para os excelentes usos que lhe forem mais convenientes."

Sinto uma cura inexplicável todas as vezes em que me vejo, ou vejo outras mulheres brilhando, silenciando medos, conquistando espaços que nos foram negados, mostrando voz ao mundo.

Esse texto é um convite, como alguém que também está aprendendo a fazer isso. Você tem pensado sobre como silenciar seus barbas azuis? Vamos conversar sobre isso?



Dalianny Vieira

Colunista e Ilustradora do InspirAda na Computação. Feminista interseccional, lésbica cis, amante de gatos. Ensina Programação para democratizar a tecnologia no VaiNaWeb. Desenvolvedora de Software na 1STi.

 

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